“No silêncio comovido da minh’alma”

Vitor Biasoli

Fui para a praia do Cassino e levei um livro de Fernando Pessoa. Fiz uma reserva num apart hotel de frente para o mar e pedi: quero um apartamento com sacada para a barra do Rio Grande. Só não disse que queria esta vista para assistir “Os navios que entram na barra / (…) / Os navios que passam ao longe / (…) [pois] / Todos estes navios comovem-me como se fossem outra coisa”.

Esses versos fazem parte da “Ode marítima”, de Álvaro de Campos (um dos heterônimos de Fernando Pessoa), e me acompanham desde a juventude. No verão de 1972 ou 73, viajei com uns amigos pra Cidreira e um deles me pediu dinheiro emprestado. Quando regressamos, ele me pagou com “O eu profundo de outros eus”, de Fernando Pessoa. Li e reli durante anos este livro, até que emprestei para uma professora e ela nunca devolveu. (Um dos três ou quatro livros que emprestei e que me arrependo até hoje.) Semanas atrás passei na banca de revista e lá estava a mesma obra, agora reeditada numa coleção de pockets. Uma beleza! Foi uma das companhias na minha pequena temporada de praia.

Li alguns versos para minha mulher, quis explicar a “viagem exploratória” que esses poemas me proporcionaram – a busca dos diversos eus nos quais nos multiplicamos –, mas confesso que não consegui. Poesia é coisa que se sente e fim de linha. Quando a gente quer explicar, melhor fazer um poema (quem sabe uma crônica) e se der certo, muito bem. Caso contrário, a poesia fica dentro de nós – como alguma coisa sem forma nadando entre as algas do peito –, a gente fecha os olhos, sabe que está lá e pronto. Vive-se.

Talvez pareça engraçado eu ter lido debaixo do guarda-sol: “Já não me importa o paquete que entrava [e os navios entrando e saindo da barra do Rio Grande] (…) / A minha imaginação (…) / Preocupa-se agora apenas com as coisas modernas e úteis, / Com os navios de carga, com os paquetes e os passageiros, / Com as fortes coisas imediatas, modernas, comerciais, verdadeiras”. Ler, olhar o corpo da mulher exposto ao sol – feliz de poder entregar-se ao sol – e depois voltar para o quarto do hotel feito um marujo que fez uma longa viagem. Com gosto de sol e de sal para sentir e saborear.

Confesso que nunca tinha lido a “Ode marítima” do início ao fim, um longo e alucinado poema de quarenta páginas, e valeu como uma das realizações desse verão. Fernando Pessoa imaginou o delirante Álvaro de Campos na beira do cais, na beira do Tejo – saudando o movimento dos navios e interrogando o “Grande Cais donde partimos” –, mal sabendo que um leitor o leria na beira de uma praia da América do Sul, na sacada de um hotel da América do Sul, quase um século depois. Quanta distância e quanta proximidade, “no silêncio comovido da minh’alma…”!

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    • http://www.professorpizarro.blogspot.com James Pizarro

      Tirante os mais de 1000 livros de doei para meus filhos, netos,alunos, escolas, amigos, etc…conservei apenas na minha casa em Santa Maria todos os meus quase 900 livros de Biologia (e afins) que coleciono e compro há mais de 50 anos.
      Nesta nova fase de vida, morando a 30 metros do mar desde 8 de março de 2008, trouxe comigo apenas dois livros : minha velha Bíblia (toda marcada com hidrocor) e o “EU e outros poemas”, do Augusto dos Anjos, que mandei encadernar em resistente trabalho e do qual não deixo ninguém chegar perto. Falo isso porque seguramente já me roubaram, escamotearam, não devolveram edições do “EU” mais de 20 vezes. Sou apaixonado pelo Augusto dos Anjos e sei tudo de sua vida, seu único livro, li e reli centenas e centenas de artigos escritos sobre ele.
      A propósito do que escreveu o V. Biasoli, devo lhe sugerir idêntico procedimento : JAMAIS emprestar livros, sobretudo para colegas professores e muito pior se forem “imortais”. Tenho um conhecido “imortal” desses que me levou um livro e nos devaneios da sua imortalidade não devolveu o mesmo. Espero que no Inferno ele me devolva porque certamente é para onde ele e eu iremos.

      James Pizarro
      http://www.professorpizarro.blogspot.com

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