Vera Pinheiro
Depois do meio-dia, estava desassossegada à espera daquela que seria a minha primeira vez num consultório de geriatria. Repassava na memória a primeira vez de tudo em minha vida e me tomava de ansiedade, antevendo as respostas que teria de dar ao médico sobre a minha intimidade. Haveria de rever hábitos e discorrer sobre costumes, o que faço e o que deixo de fazer pela minha saúde. A “mea culpa” começava a mostrar sinais de sua presença: eu deveria ter feito isso há pelo menos duas décadas! E reconhecia que o corpo precisa ganhar atenção para acompanhar o ritmo do espírito.
Cheguei um pouco adiantada, o que não é exatamente do meu feitio. Pressionada entre uma e outra atividade, chego sempre em cima da hora, quando não, atrasada. Menos dessa vez! Tinha uma sofreguidão para resolver as minhas dúvidas, embora soubesse que estava apenas começando a puxar o fio da meada de um novo momento, o do ingresso na terceira idade, finalmente assumida, sem, todavia, direito a privilégios como fila preferencial e vagas para idosos, por enquanto.
Forneci meus dados para preenchimento da ficha de cliente, paguei a consulta e sentei perto de uma pilha de revistas, que apenas folheei. O pensamento se mantinha fixo no que estava fazendo ali e sequer as tulipas dos quadros da parede conseguiam me distrair. Eu olhava para o mais profundo de mim, questionando o de que meu corpo precisaria na idade em que me encontro.
Uma paciente com o sugestivo nome de Vitória, 86 anos, aguardava atendimento. Meu olhar passeou sobre ela, que lembrava bastante a minha mãe. Não aparentava a idade, senão pelos olhos. O olhar das pessoas conta mais do que o resto da aparência. O batom vermelho se destacava no rosto sem muitas rugas e as mãos estavam cobertas de anéis de todos os tamanhos. Duas pulseiras e um cordão dourado no pescoço faziam contraste com a roupa em variações de cinza e preto, as mesmas cores que eu usava. Só me faltavam, dela, o chapéu com detalhe imitando pele de onça e os sapatinhos de prateado fulgurante, que completavam o traje da senhora.
Bem antes dos 86 é provável que eu me encoraje a chapéu de oncinha e sapatos prateados em plena luz das tardes, e ninguém terá nada a ver com isso! Perto dos 80, talvez menos, vestirei roupas hoje guardadas no fundo do armário, esperando uma ocasião especial que nunca chega, e sairei à rua com a boca emoldurada em batom vermelho, que ainda não uso. Até lá estarei acostumada a consultórios de geriatria e não me causará estranheza a receita com o timbre de “Clínica Geriátrica”, que apresentei à farmácia com meio sorriso, diante da pergunta da balconista: “Se sua mãe toma regularmente esse remédio, a senhora não quer levar mais uma caixa?”. É para mim, respondi, e nada mais a moça disse.
Não faz muito que eu portava prescrições médicas advindas de clínicas de estética, mas o tempo, agora, é outro. Não bastam os cuidados com a beleza, é preciso ter saúde! Devo cuidar do corpo, pois a vida espiritual… ah, ela anda bem tratada! Eu assumo que estou ficando idosa! E vou fazer de tudo para descobrir por que, afinal, dizem ser esta a “melhor idade”.
Daqui para frente não haverão de amedrontar os entalhes no meu rosto, os cabelos brancos que iluminam a cabeça e as curvas transformadas em horizonte plano. A pele não terá o mesmo viço, o fôlego não será o de antigamente, as vontades tomarão eixos diferentes dos atuais, então deixarei de fazer algumas coisas para me divertir com outras, domarei o meu tempo a favor do meu prazer, olharei o passado como a um filme inesquecível e o futuro será uma surpresa, mais que um desafio. Não sentirei disposição para me aborrecer com miudezas e só me ocuparei daquilo que seja leve, recompensador e bom! É possível que tenha mais amigos do que amores, e os da família continuarão em prioridade, mas sem tantas exigências. Não contarei as perdas nem as desilusões, e terei uma única expectativa: a de ser feliz e saudável para desfrutar os meus dias com a graça de uma debutante a inaugurar sua entrada triunfal em uma nova fase! A melhor de todas, quem sabe…