Pedro Brum dos Santos
Quando somos criança ou muito jovem, as coisas parecem ter um valor em si, algo separado do tempo histórico.
Refiro-me àquela fase mágica da descoberta do mundo. Os nomes colam-se às pessoas, aos objetos, aos lugares. E não nos ocorre que podem referir algo para além daquilo que conhecemos. O curioso é que muitos desses nomes mantêm, em nós, seus valores inaugurais, como o ferro quente que marca o couro cru para nunca mais sair.
Para mim, por exemplo, Casa Branca, antes de ser a sede do governo norte-americano, será sempre aquele casarão amplo, com pé direito alto, onde as portas se abriam ao comprido, uma ao lado da outra, rente à calçada. Casa Branca, do seu Wano Herter. Em Tupã, ali estava a fonte de atualização dos últimos lançamentos da eletrônica. Rádios, gravadores, televisores – em geral, grandes e pesados, os equipamentos prometiam qualidade inigualável. O que eu mais gostava, entretanto, era da seção de discos.
Os LPs e os compactos ficavam expostos numa peça separada do corpo da loja, que se entrava pelo lado do caixa. Acondicionados em suas capas coloridas, cheirando a novinhos, eram um convite irresistível ao tato, ao olfato, ao sobressalto da descoberta. Quando fui ficando maior, adorava ir lá para deixar o tempo correr livre sob os olhos complacentes do seu Wano. Olhava capas, conferia selos, lia fichas técnicas e, é claro, separava aqueles que me cabiam na mesada.
Em Tupã, porém, havia mais, muito mais. Tarzan, por exemplo, era nosso conhecido. Corpulento e famoso por ser bom de briga, foi companheiro de pesca de meu tio Rui. Quanto a Pelé, esse era gente de casa. Gostava de um trago, era um centroavante voluntarioso nas peladas de chão batido e, antes que a vida lhe levasse por aí afora, brilhou envergando a nove alvinegra do glorioso Gepo. Já Antonio, se algum santo evocava, era pelo fato de ser o padre de nossa paróquia. Santo Antonio, digo, padre Antonio, falava na rádio aos domingos e começava sempre com seu infalível “rádio-ouvintes, boa-tarde”.
Essas evocações me acompanham, todas, como sinal permanente de que meu mundo tem um centro. Embora as palavras, quase sempre, teimem em me mostrar o contrário.