Pedro Brum Santos
Em semana de Feira do Livro, entre nós, a grande notícia do meio livresco continua sendo o gesto de Hugo Chaves, que, há cerca de dez dias, presenteou Barak Obama com “As veias abertas da América Latina”, durante a 5ª Cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago.
Não sei se meu amigo Vítor, especialista na matéria, concorda, mas a História é muito irônica. “As veias abertas” é um livro de tempos bicudos, escrito no calor da hora, quando o Continente sucumbia à força ferrenha e discricionária da ditadura. Há, nele, a retórica apaixonada de cunho revolucionário, um brado à resistência.
O uruguaio Eduardo Galeano denuncia, na linha da História, a pilhagem cruel endereçada contra nossa gente e nossas riquezas. Os algozes estão todos nominados: portugueses, espanhóis, ingleses, norte-americanos. A história da América Latina é reescrita a partir do trato impiedoso dos mecanismos de poder, dos modos de produção e dos sistemas de expropriação. A descrição – mais do que isso, a denúncia – põe à mostra, com crueza descritiva e fartura de dados, a monstruosidade irracional da barbárie.
Lançado em 71, o livro de Galeano, jornalista uruguaio, hoje com 69 anos, tornou-se uma bíblia da esquerda revolucionária na América Latina. E encantou gerações de estudantes de nossa História. No prefácio de uma reedição, a romancista Isabel Allende escreve que, ao fugir do Chile, após o golpe em 73, levou poucas coisas: “um saquinho de barro do meu jardim e dois livros: uma velha edição de Odes, de Pablo Neruda e o livro de capa amarela, As veias abertas da América Latina”.
Livro de um tempo de dor e paixão, “As veias abertas” não perdem o poder de encantamento. Obama, provavelmente, não o lerá, mas, depois do gesto de Chaves, sua procura nos Estados Unidos colocou-o no topo da lista dos mais vendidos.
Definitivamente, o riso da História é sempre irônico: dizer que a estroinice de Chaves alcançou, num instante, o que muitos, em vão, deram a vida para tentar alcançar. Nem por isso, o que foi trágico vira cômico. Para Schopenhauer, por exemplo, todo o riso, no fundo, é uma manifestação pessimista diante da dramaturgia absurda que é a vida.