Máximo Trevisan
Somos seres complexos e surpreendentes. Há poucos dias, no Barra Shopping Sul em Porto Alegre, visitamos a exposição “Corpo Humano: real e fascinante” (um evento imperdível). A mostra faz jus aos adjetivos que a identificam. Sem dúvida, é real e fascinante poder, durante mais de duas horas, olhar com atenção, interesse, e não menor surpresa o corpo humano, parte por parte, e (re)descobrir como somos, carne/ ossos/ nervos/ músculos/ cartilagens que se aproximam, se completam, se ajustam, se voltam ao objetivo maior, a vida humana. Ao final, crescemos no respeito ao nosso corpo, com a consciência de quanto é merecedor de zelo e carinho. Se o corpo humano é assim tão especial e tão resistente ao desgaste dos anos, o que pensar da personalidade humana? A sua identidade, feita de valores, idéias e sentimentos, é tão única e tão diferente, que fez de cada um de nós “uma palavra que Deus disse e nunca mais repetiu”, como lembra Karl Adam. Pois, assim como as partes do corpo se harmonizam, as da personalidade buscam coerência entre o pensamento, a ação e os sentimentos, entre a fé e as obras, entre os sonhos e as realizações.
Uma palavra-chave explica a importância de ser e viver com harmonia: coerência! Praticá-la, expressá-la em atitudes e gestos exige muito de cada ser humano, tendo de enfrentar grandes inimigos que a comprometem: a conveniência; o corporativismo,que freqüentemente leva junto, de roldão, a ética; o bolso, para muitos, o órgão mais sensível; o fundamentalismo, cupim que infesta valores religiosos e ideológicos, tornando menores a lucidez e o diálogo entre os homens. Para fugir aos desafios da coerência, muitos se omitem, chamando-se ao silêncio.
As crianças (todos sabemos), em geral, são coerentes. Até quando mentem, podem ser mais facilmente descobertas; os adultos, não. Pensam e sentem uma coisa e expressam outra por interesse, para levar vantagem, por conveniência. Nós, os adultos, não raro, parafraseando o personagem bíblico, trocamos a herança da nossa história pessoal por um prato de lentilha sem a consciência de que estamos nos desfazendo do essencial em favor do transitório e do perecível.
Praticar a coerência exige muito de cada um, porque tem consequências: afasta amigos, desagrada companheiros de partido, de entidade, de associação, de clube, provoca prejuízo no mundo dos negócios. A coerência nos faz bater de frente em interesses contrariados, mas, convenhamos, não há sentimento mais gratificante do que descobrir, no espelho, que nosso olhar ainda mantém o brilho da dignidade humana!