Vitor Biasoli
Estou intrigado com uma foto que minha mãe me deu. Uma foto de 1897 – da família do meu avô materno, quando ele tinha menos de um ano de idade. Um trabalho do “photographo Baptista Lhullier”, com estúdio na rua General Osório, em Pelotas. Na foto, meu avô está sentado numa coluna entre o pai e a mãe (ambos de pé), com os três irmãos na sua frente (todos com menos de dez anos de idade).
Meu avô nasceu em 1897 e o pai dele era um português da Ilha da Madeira. Não sei quando chegou no Rio Grande do Sul e se estabeleceu em Pelotas. Sei que teve uma lancha, transportava charque para os navios que ficavam no Saco do Laranjal (talvez no porto de Rio Grande também) e foi nessa atividade que ganhou dinheiro. Naquele tempo (segunda metade do século XIX) não havia porto em Pelotas e as charqueadas viviam seu apogeu, exportando charque para a escravaria da Bahia, Rio de Janeiro e Cuba. Depois o bisavô largou esse negócio e montou um armazém: o Asa Branca.
Quanto ao cotidiano do armazém, meu avô contava que brincava entre os sacos de milho e feijão. Colocava milho no saco de feijão, feijão no saco de milho, e era severamente castigado por conta disso. Não sei se o vô costumava fazer essas artes com frequência, mas ria quando contava a história e dava a entender que tinha sido muito arteiro.
Pois eu estou intrigado com a foto porque sei pouco a respeito do meu avô materno. Nós conversávamos muito (ele morreu em 1982) e hoje me dou conta que mesmo assim sei pouco sobre ele.
A foto está na bancada onde escrevo, venho procurando decifrar o que ela conta… e percebo em mim uma ignorância profunda. Não sei contar a história dessa família…
Recordo que ele (na década de 1960) tinha um pequeno galpão no fundo do quintal e ali, diante de uma mesa de madeira rude, consertava torneiras, martelava numa gaiola de passarinho e contava histórias.
Falava da sua infância na zona do porto de Pelotas e de como gostava de futebol. Contava a respeito do dia em que Zeca Netto tomou a cidade, em 1923, e coisas assim. Eu me sentava na frente do galpão (era tão pequeno que só cabia o vô lá dentro) e ouvia o que ele falava. As galinhas cacarejavam logo ali (tinha um galinheiro ao lado do galpão) e aquilo sem dúvida era um paraíso.
Mas sei pouco sobre a história do meu avô. A foto me provoca lembranças imaginárias e súbito sou capaz de ver meu bisavô (cofiando seus vastos bigodes) atendendo atrás do balcão do armazém e de repente descobrindo que o filho misturava o milho com o feijão. O homem dá um grito para o menino parar aquela “arte” e o som de sua voz chega até hoje. Atravessa todo o século XX. Ecoa no século XXI. E sinto que ele traz alguma coisa que me forjou: um pouco da Ilha da Madeira, outro tanto da Pelotas de 1906 ou coisa assim.