Império do automóvel

Na semana passada, li n“A Razão” que Santa Maria tem contribuído tanto para a manutenção da produção industrial brasileira quanto para o agravamento dos problemas de trânsito. Isto é, mais de 800 carros foram emplacados na cidade, nos primeiros meses do ano, e a economia brasileira não pode se queixar da capacidade de consumo santa-mariense. Isto é um estímulo para a produção de automóveis – um dos índices da economia nacional – e provavelmente as montadoras brasileiras agradecem, assim como as concessionárias e a própria Central Única dos Trabalhadores.

Por outro lado, não convém esquecer que este aumento do número de veículos é também uma contribuição para a complicação no trânsito nacional. As cidades não foram planejadas para o “império do automóvel” e os problemas de viários se agravam ano a ano. As principais capitais brasileiras já se encontram num ponto crítico – Rio e São Paulo que o digam, estão à beira do caos – e os demais núcleos urbanos seguem o modelo. Um contingente expressivo da população adere a um estilo de vida onde o carro é peça individual imprescindível para o cotidiano e estamos no pé em que estamos: diante das agruras dos engarrafamentos. Santa Maria está longe do caos, mas não convém esquecer que é para lá que nós vamos.

Quanto a isto, meu ponto de partida para pensar Santa Maria é 1991, quando vim morar na cidade. De lá para cá, constato uma mudança impressionante no trânsito. Não sou motorista – sou um pedestre que cruza de ponta a ponta o nosso núcleo urbano – e observo. Às vezes ando de carona, de táxi ou de ônibus e constato que o trânsito não é mais de um modesto burgo interiorano. Quando pego um táxi para ir de casa à rodoviária, já percebi que devo calcular um tempo maior do que há dez anos atrás.

Será que isso tem solução? Não sei. A indústria nacional depende das montadoras de automóveis, as montadoras dependem da fissura dos brasileiros por automóveis, a fissura por automóveis está vinculada às deficiências do transporte público e essas deficiências só fazem crescer a paixão por carros individuais e o aumento da produção de automóveis. Tudo isto incrementa a economia nacional e também estrangula o trânsito das metrópoles brasileiras assim como gera tensões nas cidades de porte médio, como Santa Maria.

Os otimistas dirão que tudo se resolverá no dia em que os poderes públicos investirem maciçamente em avenidas, pontes e túneis, e remodelarem as cidades. Pode ser. Mas é muita grana, dinheiro público demais para 1/4 (ou menos) dos habitantes das cidades, isto é, os proprietários de veículos privados. A alternativa mais razoável seria um investimento pesado no transporte coletivo, mas isto, provavelmente, seria um golpe no império do automóvel e no padrão ideal de vida urbano. Impensável, então. Melhor o aumento dos automóveis e esta balbúrdia generalizada no trânsito das cidades.

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