Inquietações

Antônio Cândido Ribeiro

Às vezes, na quietude das madrugadas indormidas, eu me descubro inquieto, pensamento errando por sensações que imaginava adormecidas, por certezas que se liqüifazem ao mais sutil toque da realidade. É, amiga, viver é quase sempre complicado. Mais por nós mesmos, por nossas inseguranças, por nossos medos, que propriamente por aquilo que a vida e o mundo antepõem à nossa caminhada. Não raro, nosso passo inseguro, vacilante, que até disfarçamos com alguma maestria, decorre dos fantasmas alheios que se vão plantando à nossa porta e que assumimos como se fossem nossos. Além das nossas próprias dores, que, é certo, não há como evitá-las todas, assumimos dores que não são nossas, nos comprometemos com sonhos que não são nossos, alimentamos tristezas que não nos pertencem.

Por isso, é necessário que tenhamos um mínimo de discernimento, de capacidade de compreensão dos fatos da vida, e de fortaleza anímica para nos isolarmos um pouquinho das dores do mundo, sem nos tornarmos – isso é imprescindível – egoístas, sem nos transformarmos em seres insensíveis e indisponíveis para a generosidade e para o gesto fraterno. E mais, sem nos tornarmos maniqueístas. É preciso encontrar o equilíbrio, mesmo que sofrido, mesmo que precário. E é por isso, penso, que as minhas humanas fragilidades se acentuam quando paro para conversar comigo mesmo. Lá fora, na noite imensa, e não importa quantos vaga-lumes (sem hífen?) acendam seus pequenos luzeiros, e não importa quão generosa e grávida de luz se faça a lua cheia, há dores e sofrimentos que nós – sociedade, governos, igrejas – somos incapazes de atenuar.

Talvez, eu devesse ler um romance de capa e espada ou ver uma comédia na televisão; talvez eu devesse ouvir um rock leve e despretensioso ou me conectar com o mundo, no que o mundo tem de melhor, pela Internet; talvez eu devesse rabiscar um poema de suave andamento. Talvez, eu devesse ir para a cama dormir o sono dos justos, certo de que tenho tentado fazer minha parte na produção da frágil teia das relações humanas. Talvez eu não devesse olhar para os lados, talvez eu devesse me concentrar mais em mim mesmo, lamber minhas próprias feridas. Afinal de contas, quem de nós não tem seus próprios problemas? Talvez eu me preocupe à-toa, porque, dizem, a vida é assim mesmo, desde que o mundo é mundo.

Sei não, amiga, acho que estou ficando com o miolo meio mole. E se for isso, estou lascado, porque sempre me pensei capaz, sem cartesianismo, de compensar a irracionalidade amanteigada do meu músculo cardíaco com uma mínima habilidade para racionalizar as questões que dizem respeito à vida. Se for isso, deu para minha bolinha, padecerei de permanente insônia e só dormirei sob o efeito de pesados sedativos ou de muita poesia.

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