Lição de mulher

Pedro Brum dos Santos

O Dia Internacional da Mulher transcorreu domingo e, a propósito, aproveito a oportunidade para lembrar o exemplo de tenacidade e clareza de uma delas, que foi grande figura de nosso tempo.

Refiro-me a Susan Sontag, consagrada escritora, crítica e ativista norte-americana, morta aos 71 anos, no final de 2004, depois de sua última cruzada, dirigida contra o governo Bush e a invasão do Iraque.

Gosto particularmente das lúcidas anotações que a autora faz a respeito do compromisso ético do escritor – e, por suposto, da literatura. Em um texto póstumo, incluído em apanhado ensaístico recentemente lançado no Brasil pela Companhia das Letras (com o título de Ao mesmo tempo), ela retoma o tema e trabalha com a idéia de que a ficção amplia nosso mundo, por isso ela é tão necessária.

Enquanto, na era da internet, a simultaneidade de informações torna opaco nosso julgamento sobre as coisas, cabe a uma boa e velha peça literária – um drama, um romance, uma novela, o que a pensadora chama de “um encolhimento do mundo”. Em outras palavras: a ordenação de um fato (no sentido de algo factível) particular numa determinação temporal e espacial. Um livro de literatura deve existir para nos dizer: essa é a história importante. Ao fazê-lo, ele, o livro, reduz a dispersão e a simultaneidade de nossa atribulada era a algo demarcado, a um caminho que, embora a amplitude de seus horizontes, nunca perde de vista o singular, a individualidade.

Sontag busca um antigo provérbio para reforçar a argumentação: “o tempo existe para que tudo não aconteça de uma vez só… e o espaço existe para que não aconteça tudo com você”. Quando organiza uma sequência, uma determinada lógica de ações, um enredo literário retoma, exatamente, essa noção de tempo que assinala, ordena e dota sua matéria de um sentido particular. Do mesmo modo, ao distribuir as ações entre personagens com as quais, de algum modo, nos identificamos, mostra-nos que não estamos sozinhos no espaço – em nossas agruras ou em nossos acertos.

Solidariedade: eis a palavra-chave para saudar Susan Sontag. E, com ela, às escritoras e às mulheres em geral, que, com suas narrativas “ampliam e complicam – e, portanto, aprimoram – a nossa [própria] solidariedade”. Com elas, enfim, educamos a nossa capacidade de juízo moral.

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