Máximo Trevisan
Viajar a uma velocidade de 950 quilômetros/hora; dar-se conta de que, lá fora, no céu, a temperatura é de 50 graus abaixo de zero; voar a uma altura de mais de 10.000 metros; tomar consciência de que se é, no ar, uma simples e frágil folha da árvore da vida, não muito mais do que isso, essa é uma grande realidade. Numa poltrona de avião de linha internacional, ora um passageiro de primeira viagem, ora um pouco mais experiente, essa é, em qualquer hipótese, uma experiência única, especial, intransferível. Quem já teve a oportunidade de um voo assim, por certo já experimentou as emoções de uma longa travessia rumo a outro continente.
Há de se convir, uma viagem, seja ela qual for, começa sempre com a decisão pessoal de viajar! No fundo mesmo, viaja quem deseja viajar, quem quer viajar. Tomada a decisão, começam os passos necessários: a escolha do destino e do roteiro, a data e o tempo de duração, a opção por uma agência, a escolha da companhia aérea, o horário do voo, o número da poltrona. Mais do que de repente, no entanto, chega o dia da partida e a ida ao aeroporto, quase sempre com sonhos, esperanças, alegria, desejo do novo e do belo e algumas preocupações.
Todo viajante, sem dúvida, é um crente porque demonstra muita fé em tudo. Da chegada ao aeroporto até a hora do embarque, tudo é comportamento de quem confia, e muito, em tudo! A entrega da mala, o recebimento do cartão de embarque, e está pronto o check-in. O mais é o desconhecido e a confiança em todos: que tipo de avião será? Foi devidamente revisado? Por quem? Qual o plano de voo? Que qualificação tem a tripulação? Assina-se um cheque em branco, pratica-se um extraordinário ato de fé em que tudo que foi dito vai acontecer, e bem. Então começa a longa viagem, muitas vezes com mais de dez horas de duração, entregue a uma companhia aérea e a pessoas de cuja competência nada se sabe. Essa é realidade que surpreende, instiga, às vezes atemoriza. Tudo funciona desse jeito, com toda a segurança, afirmam. E quem quiser conhecer o mundo o caminho é atravessar o Atlântico e outros mares. A recente tragédia com o Airbus A-330-200 da Air France, os passageiros de 32 nacionalidades, os tripulantes, as famílias, todos nos envolvemos emocionalmente, na grande dor de ver vidas ceifadas, sonhos quebrados, presente desfeito. A queda do Airbus nos faz cair também, mas dentro do nosso mar de interrogações sobre a vida, o seu sentido, as suas circunstâncias, os seus valores. Afinal, viver não é assumir riscos? Viver não é conviver com a fragilidade humana?