Vera Pinheiro
“Quem não se enfeita, por si se enjeita”. Uma colega me lembrou desse provérbio quando elogiei a blusa que vestia. Ela estava especialmente elegante e usava um lindo par de brincos novos. Mulher tem olhos para ver tudo, não? Homens não reparam, mas nós – ah, nós vemos se a outra tirou meio centímetro do cabelo, se pintou as unhas dos pés há mais de uma semana, se mudou de louro cinza claro para louro cinza claro natural, o que faz muita diferença e só eles não percebem.
“Pintei os cabelos, viste?”. “Não. É mesmo?”. A essa altura, se não cultivássemos o verbo relevar, já teríamos metido um soco no meio da testa dele para que, da próxima, ele enxergue melhor. Porém, avessas à violência, não chegamos a esse extremo e tentamos compreender a espécie masculina, em tudo diferente do que somos e tão inquietante quanto encantadora. É o que nos faz ter paciência com deslizes como o de não atentar para a mudança de coloração de nossas madeixas. Com o tempo e a convivência aprendemos que preto, louro e ruivo são o máximo que ele consegue discernir dentre as inúmeras tonalidades de cabelo, e contentamo-nos com os elogios espontâneos das amigas e do(a) cabeleireiro(a).
Não é que os homens não queiram elogiar, eles simplesmente não ligam, não firmam o olho para detalhes (importantíssimos!) como esses. Mas botem a cara deles numa caixa de ferramentas ou sob a tampa erguida de um carro! Eles veem o parafuso que nem com uma lupa enxergamos, assim como sabem a utilidade e o tamanho de cada chave em milímetros sem olhar o número, tanto menos o manual de instrução. Ao contrário de muitas de nós, eles não precisam de manuais.
Reconheçamos: as mulheres entram em brigas inúteis com os homens pelo que não vão conseguir modificar neles. Por exemplo, competir com carro, que enche os olhos masculinos de uma emoção maior do que a que experimentam quando estamos “vestidas para matar”, nuas em pelo ou fantasiadas para despertar o fetiche mais oculto dele. Se ele estiver cuidando do carrinho, esquece! Melhor fazer outra coisa, porque ele está em êxtase e praticando uma espécie de poder sobre a máquina, o que não experimenta com as mulheres há tempos, independentes que nos tornamos.
Para mim só há dois tipos de carro, os grandes e os pequenos, embora saiba o que são caminhões, ônibus, avião, moto e bicicleta. O significado de cada um se restringe ao seu préstimo, por isso me comove a paixão que os homens sentem por veículos em geral. “Por que eles acariciam tanto o carro?!”. Essa pergunta tem como resposta não mais do que uma frase lacônica: “Carro é… um carro, ora!”. Não se pode decifrar o inexplicável que só um homem entende.
Por mais alto que seja o berro, não adianta pedir que volte os olhos quando apelamos por atenção inadiável. É sabido que homem nenhum presta atenção em mais de uma coisa ao mesmo tempo. Se estiver ao telefone, é debalde qualquer tentativa de diálogo, pois nada será registrado na seletiva mente masculina. Lendo, vendo o time na tevê ou diante do computador ele se abstrai totalmente. Mas não é por mal, apenas é diverso de nós, que podemos revisar um relatório circunstanciado, mantendo o fio do celular numa orelha e o aparelho do telefone fixo no ombro, o olho esquerdo no noticiário e o direito no filho, enquanto cozinhamos, planejando a saída de amanhã. Aliás, é de efeito nulo entregar a agenda toda: “Vamos aqui, ali, lá e acolá.”. Ao fecharmos a boca, ele vai perguntar: “Aonde vamos mesmo?”. Pensa num botão de liga/desliga e começa a conversa de novo, do ponto em que ele parou de ouvir.
Fora isso, debates incansáveis sobre a relação entediam, exigências demasiadas cansam, perseguição enjoa… e homens que reagem de um jeito inesperado surpreendem. Então, quando eles atormentam os ouvidos femininos com discussões do relacionamento, ceninhas de ciúmes e cobranças sem fim, as mulheres, que evoluíram no aprendizado das emoções, perguntam: “Que conversa é essa agora?!”. Sem ouvir palavra da resposta, elas continuam o que estão fazendo, ignoram o assunto e comentam somente a última frase, sem entender do que eles reclamam quando se invertem as posturas e o olhar distraído deles está estampado num rosto de mulher.