Antônio Cândido Ribeiro
Contou-me minha mãe que, eu ainda em seu ventre, uma simpática cigana disse-lhe, na Avenida Rio Branco – não a atual, feia, desfigurada, com canteiros centrais priva-tizados, verdadeiro portfólio do desleixo e do descaso do poder público para com aquilo que, sendo público, é de todos –, que eu seria um grande político. Vê-se que o vaticínio da zíngara não se confirmou. E não porque me tenha faltado vontade. Desde pequeno, acreditei que o seria (nos meus devaneios, antevia-me em papel de destaque na vida polí-tica nacional). Sabe-se lá por quais razões, desde piazinho, eu gostava de política. Dá para imaginar um guri nascido e criado nas solidões do pampa, no interior do interior de Dilermando de Aguiar, há 50 anos, tão interessado em política, que passava horas em frente a um rádio de válvulas ouvindo, entre chiados, transmissões de comícios ou de apuração de eleições? Ou que ele soubesse de cor nomes inteiros de deputados, senado-res, vereadores, governadores e o escambau? Com igual exatidão, ele só sabia escalações de times de futebol, muito especialmente do glorioso, imortal e amado Grêmio FBPA.
Depois, ainda menino, já na cidade, diminuiu um pouquinho o interesse. Conse-qüência natural das peladas nos muitos campinhos de futebol que Santa Maria possuía. Mas, ainda no colégio e mais tarde na Universidade, o interesse voltou forte e fiz política estudantil. Só não ingressei efetivamente na vida partidária porque casei muito cedo e minha primeira mulher não gostava de política. Após, formado, na saudosa Cáceres (MT), fui instado por amigos (teria muitos apoios) a me candidatar a vereador.
Entusiasmei-me com idéia, mas o sonho mais uma vez ruiu: na hora de transferir meu título eleitoral para lá, o amor por Santa Maria falou mais alto (aqui sempre foi meu domicilio eleitoral) e, na época, já separado, cá estavam meus filhos. Foram eles que me motivaram a largar tudo que estava construindo no Centro-Oeste para, aqui, recomeçar a vida. Depois, novo casamento e com apoio da mulher (esta dá um dedo pela vida política), militei fortemente no PMDB, do qual fui dirigente e pelo qual me candidatei a vereador. Candidatura que voltou à baila na eleição passada. Felizmente, desisti (minha hora já passou).
Calma, amiga, só falei de política porque queria falar de ciganos (daí o gancho i-nicial), esse povo misterioso, espalhado pelo mundo. Inclusive, na calçada lateral do pré-dio onde trabalho, onde, vezes sem conta, ciganas ficam à cata de incautos, jovens e ve-lhas senhoras, para lerem mãos, verem sortes e “otras cositas mas”. Não, não quero bron-quear com as ciganas. Os Rom me fascinam, pela sua história permeada de injustiças e preconceitos, pela sua peculiar cultura e, talvez, por uma remotíssima noite andaluza – aquecida por fogueiras, ao som de violinos e do farfalhar de longas saias –, perdida na memória dos tempos. Ou pelo aconchego e pelo generoso calor humano encontrados em uma grande barraca de lona, em não tão remota noite, no tempo do menino que fui. Noite de perda e de sofrimento, pelo meu avô que se fora.