Padre Francisco Bianchini
Estamos no tempo da quaresma, por isso, tempo de estarmos em “Jerusalém”, lugar dos grandes acontecimentos de nossa salvação. Assim como no tempo de Natal estivemos em “Belém” para acompanharmos o nascimento de Jesus, agora queremos estar em “Jerusalém” para vivenciarmos o cumprimento de suas promessas.
É tempo de estarmos em “Jerusalém” para acompanharmos as palavras e os gestos mais impressionantes da história da humanidade que nos dizem respeito.
É tempo de irmos ao deserto para nos depararmos com a realidade e fragilidade da vida e através da palavra de Deus entendermos mais profundamente o sentido da vida; para aprendermos a vencer as tentações modernas do relativismo, do egoísmo, do consumismo e, sobretudo, de vivermos a vida sem dar-lhe um sentido.
É tempo de irmos ao deserto para nos fortificarmos na autodisciplina; para nos afastarmos um pouco do dia-dia, das correrias e nos perguntarmos que sentido estamos dando à nossa vida. Qual é a missão de cada um de nós neste mundo?
É tempo de estarmos em “Jerusalém” para também galgarmos a montanha, se possível a mais elevada, acompanharmos Jesus e permitir que a nuvem da história e, especialmente, a nuvem do amor nos envolva para que junto com Ele aprendamos ouvir a declaração de Deus que nos diz que, como Jesus, somos seus filhos e filhas muito amados.
É tempo de permanecermos na montanha para deslumbrarmos uma nova dimensão deste Homem, Jesus, o seu mistério e sua divindade. E, bem no alto da montanha, experimentarmos a alegria do transcendente, do inusitado, do mistério, a ponto de sentirmos a tentação de querermos permanecer lá .
Porém, lá do alto da montanha haveremos de contemplar o mundo com seus desafios, suas novas exigências e aceitar sermos convidados, pelo próprio Jesus, a descer para sermos aqui, neste mundo, o sal, a luz e o fermento transformador.
Vai chegar o tempo em que desceremos do monte para irmos ao templo presenciar a expulsão dos vendilhões, dos que fazem da casa de Deus lugar de comércio e de jogo de interesses. Para isso, precisaremos nos munir de coragem e expulsar os vendilhões que podem estar dentro do templo ou em cada um de nós; ou seja, expulsar todos aqueles desejos e instintos que nos levam a deturpar nossa verdadeira identidade, nossa dignidade e santidade, como, por exemplo, o egoísmo, o orgulho, a inveja, o comodismo, as discriminações, as injustiças, a falta de fraternidade, de solidariedade e tantos outros vendilhões que conhecemos muito bem.
Depois de termos o coração limpo e livre, poderemos voltar novamente à montanha, só que ao monte das bem-aventuranças, para recebermos a nova cartilha, as novas tábuas da lei, o novo programa de vida. E com a cartilha das bem-aventuranças na mão, partirmos seguros para o trabalho da construção da própria vida, colocando-nos a serviço dos demais, com novos critérios e novas esperanças.
É tempo de estarmos em “Jerusalém” para progredirmos no conhecimento de Jesus Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus e compreendermos mais profundamente seu imenso amor por nós.
É tempo de estarmos em “Jerusalém” para purificar nosso olhar, colocando o olhar da fé, para que, com os olhos iluminados pela luz de Cristo, possamos ver a realidade do mundo de hoje de maneira diferente.
É tempo de estarmos em “Jerusalém” para lembrarmos que fomos tirados da escravidão do Egito pela mão poderosa de Deus e conduzidos à terra prometida. E, assim, sentirmo-nos povo herdeiro de uma promessa, de um legado que vem desde Abraão.
É tempo de estarmos em “Jerusalém” para sermos ouvintes atentos, abertos, humildes, porque, com certeza, de novo, acontecerá que os habitantes de “Jerusalém”, não lhe darão ouvidos, pois Ele é profeta da terra e dificilmente os profetas da própria terra são ouvidos.
É tempo de estarmos em “Jerusalém” para facilitar nossa conversão tornando-nos discípulos missionários de Jesus e de sua grande mensagem de amor a Deus.
É tempo de estarmos em “Jerusalém”!