“Não vi ou ouvi Deus, foi um sentimento”

Lizie Antonello

No domingo, o Padre Francisco Bianchin comemora 40 anos de ordenação. Ao longo dessas quatro décadas, Padre Xiko, como é conhecido, acumulou conhecimento e experiência.

A trajetória começou ainda muito jovem. Vindo de uma família religiosa, que desejava ter um membro da Igreja entre os seus, foi na escola o primeiro passo. Durante atividade de aula, na escola do então distrito de Palma, em Silveira Martins, Francisco, com cerca de 12 anos, como os colegas, descreveu as profissões que gostaria de exercer quando adulto. Entre elas, estavam advocacia, magistério e sacerdócio. Hoje, na Paróquia de Nossa Senhora das Dores e em toda Santa Maria, pode-se afirmar que, para as pessoas que orienta, ele é muito das três.

A folha contendo as pretenças profissões, através do professor, chegou às mãos do vigário. “O vigário, promotor vocacional, foi a minha casa confirmar se era mesmo a minha vontade. Diante dele eu confirmei e a cada ano que passava sentia mais forte essa confirmação”, lembra o religioso.

Os estudos que começaram no berço da Quarta Colônia de Imigração Italiana, onde ele nasceu, seguiram em Faxinal do Soturno, depois no seminário de Vale Vêneto (São João do Polêsine) e no Colégio Máximo Pallotino, em Santa Maria. Os anos de dedicação culminaram com o motivo das comemorações deste domingo, a ordenação, em 5 de julho de 1969. A cerimônia ocorreu na Capela Menino Jesus, no bairro de mesmo nome. A escolha parecia compreensível, o local em que trabalhou durante os estudos de Teologia. “Acompanhava o grupo de jovens, talvez, o maior da Diocese e visitava as famílias”, conta Padre Xiko.

Antes da ordenação, os quatro dias de retiro, meditação e oração, orientados pelo Padre Arturo Pauli, ajudaram o religioso a ter ainda mais certeza da vocação. “Dúvidas são normais durante a caminhada, se pergunta se é esse o caminho, mas as respostas vão aparecendo normalmente pelos fatos e situações. Sempre com auxílio dos orientadores espirituais”, comenta o sacerdote.

Mas um episódio em especial, um ano antes da cerimônia, deu ao Padre a segurança que faltava. “Por dois anos, ia todos os dias à tarde à Capela com esse objetivo de buscar a certeza. Eu rezava e me perguntava se de fato teria condições de assumir o compromisso que é se padre. E tive um momento que me tranquilizou profundamente. Foi uma experiência interior, uma força disse que esse era o caminho. Não vi ou ouvi Deus, foi um sentimento”, relata.

A partir daí, eliminada a preocupação de ser ou não, outro questionamento aflorou: como fazer? Na época, muitos padres se ordenavam e continuavam seus estudos. Francisco optou por seguir trabalhando junto à comunidade. Como missionário foi a Santa Cruz do Sul e, em sete meses, passou por várias cidades do estado e de outros locais do do Brasil. Foi nomeado Pároco em Faxinal do Soturno, onde permaneceu por três anos. Estudou em Quito, no Equador e retornou, em 1973, a Santa Maria, onde vive até hoje.

Programação – As comemorações dos 40 anos de sacerdócio serão realizadas no domingo. Haverá missa, às 10h, na Igreja das Dores e, às 12h, almoço festivo no salão paroquial, na rua Pinto Bandeira.

À frente de projetos sociais

Além das atribuições rotineiras na vida de um pároco, Padre Xiko desenvolve outras atividades na comunidade de Santa Maria. Já participou do mutirão que construiu mais de cem casas populares para famílias de baixa renda no município e, hoje, coordena projetos de inclusão digital na Vila Maringá. No local também são desenvolvidas oficinas de culinária, artesanato e marcenaria, entre outras.

Há 36 anos coordena o Cursilho, na Igreja das Dores. Desde então foram mais de 200 Cursilhos. O curso de formação para líderes cristãos existe desde 1972 e acontece três vezes ao ano. A duração é de três dias. Para participar é preciso ser convidado e ter no mínimo 18 anos. “É um processo, levar as pessoas a uma experiência humana, comunitária e cristã.”

Um contador de histórias reais
Padre Xiko é conhecido em Santa Maria e região pelas histórias que conta de experiências vividas. Ele não tem ideia do número de celebrações que conduziu. Foram milhares de batizados, eucaristias e casamentos. Mas algumas passagens ficaram gravadas. O palco em que elas acontecem são geralmente os casamentos.

“Uma vez tive que interromper três vez um casamento porque o noivo desmaiava. A cada vez, parava a missa, ele tirava gravata, as pessoas saiam da Igreja e depois tinha que retomar”, relata o padre, acrescentando que são ‘eles’ que mais desmaiam mesmo. “Lembro de apenas uma noiva que tenha desmaiado, mas noivos foram muitos, numa quantidade bem maior”, observa.

“Em outra ocasião, o noivo estava tão nervoso que a cerimônia mal tinha começado e ele perguntou se ‘estava pronto’… depois saiu da Igreja amparado pelos familiares”, lembra.

Um dos fatos mais curiosos também aconteceu durante um matrimônio. “A noiva, ao entrar na Igreja, cobriu o rosto com um véu. Na hora de colocá-lo, junto ao véu veio um gafanhoto. Os noivos e demais pessoas não perceberam. Quando eu vi, para não fazer alarde, tive que montar toda uma estratégia para tirar o inseto. Me aproximei dela com o livro aberto e puxei o gafanhoto por baixo do livro”, conta o religioso.

As opiniões sobre alguns assuntos
Política
Convidado diversas vezes para se candidatar a cargo eletivo no município, Padre Xiko diz se sentir muito mais preparado para exercer o sacerdócio do que para a política.

“Igreja é comunidade que tem como objetivo trabalhar em favor da vida humana. A política é uma mediação para favorecer o desenvolvimento da vida, não é um fim. A Igreja tem que estar presente não partidariamente. Ela se perde se assume um único partido – q vem de parte – porque se preocupa com o todo. Mas é impossível o trabalho não ter incidência política, porque o homem é um ser político.

A Igreja sempre participou, através de seus documentos, orientações, e deve participar, apoiando, alertando e até criticando o que não representa o bem comum. A tarefa de dirigir a sociedade política é específica dos leigos e acredito que há leigos com capacidade para exercer, enquanto a missão dos padres é no âmbito da Igreja. Mais do que isso, estão faltando padres – orientadores – que ouçam as pessoas e ajudem e leigos estão sobrando. Se não são suficientemente aptos, podem se preparar para isso.”

Religiões
“O princípio fundamental das doutrinas cristãs é Jesus Cristo, sua vida, ensinamentos. A diferença é a forma de seguir, maneiras de interpretar e cultuar. Todos os credos tem seus valores, verdades, tem elementos positivos, por isso, se fala em união das Igrejas. Sempre atendi ouvindo e abençoando as pessoas. Elas sentem que a bênção conforta e a procura vai crescendo. Depois de dois ou três anos como padre comecei a atender uma vez por semana.”

Doutrina Espírita
“Não tenho proximidade com a doutrina Espírita. A doutrina Cristã tem elementos suficientes, não há necessidade de se recorrer a outra. Sou conhecedor. Como padre, tenho obrigação de conhecer outras doutrinas, seus princípios, até para orientar melhor as pessoas que têm dúvidas e não confundir.”
Literatura

Padre Xiko não tem ideia de quantos livros já leu e tem algumas centenas de exemplares na sua biblioteca. Nem todos sobre religiosidade. Entre as áreas que mais gosta, psicologia e teologia, mas também tem títulos sobre política a atualidade. “Temos que estar a par daquilo que se vive no mundo.”
Sobre a mesa, no escritório, ‘O Rosto de Cristo’, de Armindo Trevisan, é a obra que detém a atenção do padre no momento. Sobre o hábito: “Leitura é exigência da profissão. Hoje o profissional que não se atualiza não contribui com a sociedade. Se vale para todas as profissões, de forma mais clara ainda para o padre, porque ele é um orientador.”

Ciência
“A Igreja não tem medo da ciência, ao contrário, ela é fundamental para a religião. A ciência vem confirmar a fé. Não há porque não valer-se disso. Einstein já dizia: ‘A ciência sem a fé é cega e a fé sem a ciência é manca’. Porém quando se trata de doutrina existem princípios que são intocáveis – dogmas. Mas há uma gama de campos em que é possível ter avanços, novas visões. A Igreja parte sempre do princípio de defesa da vida. Células tronco, aborto, eutanásia… quando há clareza, certeza de que a vida será protegida a Igreja se pronuncia a favor, do contrário não.”

Relações humanas
“Trabalho muito com curso de preparação de noivos. Muitos me procuram depois de casados para pedir orientação. Além disso, trabalho com as famílias. Em ambos, as questões mais frequentes são de convivência e relacionamento. Com o tempo, os casais esquecem de cultivar o diálogo, começa o desgaste e muitos não sabem administrar isso. O descompasso entre o crescimento de homem e mulher também gera atritos. Meu conselho é, através do diálogo, buscar as causas e aí é necessário fazer uma espécie de terapia entre eles. Algumas coisas se resolvem outras se administram. É preciso paciência. É um exercício para superar dificuldades.”

Epidemias
“Tenho dúvidas sobre a Gripe A. Se ela não é uma doença produzida, até pelo fato do local onde ela surgiu e de onde é o laboratório que produz o medicamento indicado para o combate, o México. Ela surge ou é produzida? Assim como se produzem os vírus de computador. Muitas doenças demonstram desequilíbrio da natureza. No meio disso está o ser humano que age sobre a natureza, mas também há o natural agindo por si. Na história da humanidade sempre existiram doenças e sempre vão existir. Não acho que seja algo pelo qual o homem tenha que passar.”

Vaidade
“Todos somos um pouco vaidosos. É preciso ser para manter a auto-estima. Mas não como forma de exibição.”

Futuro
“Se diz que uma vez se era jovem, agora se tem uma juventude acumulada. Minha perspectiva é de continuar a servir da forma possível, mas o campo onde servir não cabe a mim escolher. Sou membro de uma sociedade é desejo ser útil, trabalhar onde possa contribuir.”

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    • Carmen Mai

      Li esta entrevista com o Pe. Xiko aqui em Montreal , no Canada, onde passo uns dias com meu filho e sua familia que aqui residem.Penso que o Pe.Xiko eh daquelas pessoas iluminadas que vem ao mundo para difundir essa Luz. Alias, este eh o seu lema:Ser a Luz de Jesus Cristo para todos os que o procuram ou vivem ao seu redor. Vocacao eh isto, nao eh preciso ouvir a Deus, basta ser tocado pela sua Luz e isso o Pe. Xiko faz muito bem, despertando novas vocacoes num mundo que parece arido,mas ainda tem terrenos bons para serem semeados.

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