A chuva de domingo literalmente levou por água abaixo móveis, paredes e até veículos, além de colocar dentro de várias casas em diferentes pontos da cidade uma mistura de barro e esgoto. Foram 43,9 milímetros de chuva, iniciada por volta das 19h, segundo a Central de Meteorologia da Base Aérea de Santa Maria (BASM). O mês já acumula precipitação de 127,5 mm, se aproximando da média histórica do mês de janeiro (145 mm). O Corpo de Bombeiros de Santa Maria registrou 30 atendimentos em decorrência das chuvas de ontem, em sua maioria em relação a alagamentos e inundação, nenhum referente a pessoas ilhadas.
A força da chuva fez parte do muro da Escola Estadual Marieta D’Ambrósio, que fica na Rua Tuiuti com Appel desabar. Foram cerca de sete metros de muro que interromperam a passagem de pedestres e parte da pista. Segundo a vice-diretora da escola, Adriane Guerra, lajes de concreto da quadra de esportes do colégio desmoronaram e um cano da Corsan ficou danificado. A prefeitura removeu os destroços de manhã, não houve vítimas e também não haverá maiores transtornos, pois a escola está em período de férias. “O que pode ter provocado a queda foi o acúmulo de água da chuva e sua força”, afirmou a vice-diretora à Rádio Santamariense.
O prédio da Receita Estadual, próximo ao Fórum, também teve prejuízos com a chuva de domingo. Uma parede de cerca de 2 metros e meio desabou no subsolo e a sala do arquivo da Receita teve as caixas onde estão os documentos molhados. “Na parede que desabou não foi feita a drenagem para impedir o excesso de pressão da água e, por isso caiu. Assim, terra e água entrou na sala do arquivo deixando uma lâmina de água de 5 cm”, afirmou o engenheiro da Defesa Civil, Júlio Uminski.
Segundo o Chefe da Defesa Civil, Cladmir Cordeiro do Nascimento, foram três os atendimentos feitos em relação à chuva. Dois foram de entregas de lonas nas vilas Lorenzi e Urlândia; o outro foi um chamado no campo do Imembuí para o resgate de duas pessoas que ficaram ilhadas no local e foram encaminhadas para o Albergue.
Na Rua General Neto e Fernando Ferrari, a força da água fez o asfalto ceder. Segundo Sílvio Souza da secretaria de Obras, a previsão é de que até o fim da tarde o problema esteja solucionado.
Cascata de barro
Os moradores da Rua adjacente à Euclides da Cunha, onde moram quatro famílias, toda vez que chove o problema é o mesmo: a água desce carregando barro e inunda as casas. Moradores do local há mais de 30 anos, Odilo dos Santos Flores, 75 anos, e Sílvia Flores, 74, reclamam que já perderam a conta de quantas vezes já foram reclamar para a prefeitura. “Tudo o que queríamos era algum asfalto nesse pequeno trecho, pois além da água entra terra nas nossas casas e fica tudo esburacado”, comentou Odilo. A chuva de domingo assustou Sílvia. “Alagou tudo ontem (domingo) e até me fez lembrar do temporal de Santa Catarina. A moradora da casa ao lado até desistiu de morar aqui, apesar de ter acabado de construir a casa porque sempre inunda aqui”, disse.
Quando a rua se tornou um rio
“Agora vou ter que comprar tudo de novo para elas”, comenta Robson Domingos dos Santos, 29 anos, sobre os brinquedos das filhas que foram estragados pela inundação causada pela chuva de domingo. A água invadiu a casa do morador, que fica na Rua Coronel Valença, na Vila Oliveira, e molhou sofá, caixas de som, os sapatos das filhas e da mulher que estavam no chão, além de outros móveis e eletrodomésticos.
“Cheguei a ficar com os braços doendo de tanto tentar empurrar a água para fora de casa, mas não pude conter a inundação. O sofá ficou em estado deplorável, mas perdi menos do que na última chuva forte, em dezembro. Na época, todo o rancho se foi com a água e ainda o fundo de um armário que tinha acabado de comprar. Dessa vez deu para salvar geladeira e colchão”, lembra Robson, que mora no local há três anos e salienta que sua casa só começou a inundar depois do início das obras da prefeitura em sua rua.
Na casa ao lado, a madrugada de segunda-feira foi de limpeza da casa, já que a lâmina d’água atingiu cerca de 40 cm. “Erguemos todos os móveis e eletrodomésticos com tijolos com ajuda de vizinhos, pois tenho problema no braço e não posso fazer muito esforço. Na minha casa nunca tinha entrado água. Agora estou com a casa que é um chiqueiro, porque não era apenas água da chuva, mas também esgoto que voltava da boca de lobo que fizeram depois da última enchente – o que supostamente aliviaria esse problema de alagamento”, comentou Sali machado, 50 anos, que é vizinha de Robson e mora há 20 anos no local.
A moradora lembra que na tentativa de diminuir o fluxo de água com esgoto para dentro de casa, Sali e os vizinhos tentaram desentupir as bocas de lobo e se surpreenderam com a quantidade de lixo e até animais mortos que vinham por ali. “Só quero ver como vai ser no inverno” disse Sali. A vizinha dela, Neila Soares, 52, conta que durante o período mais intenso da chuva, a força da água até arrastou o carro que estava no pátio de casa. “A água só não entrou para a casa porque vedamos bem a porta, mas o carro tivemos que correr para ele não sair de casa. Na casa do meu filho, eles tiveram que colocar todos os móveis e víveres numa peça só, porque o resto alagou”, comenta a senhora que só pôde voltar para casa depois da Igreja após a chuva ter diminuído.
Solidariedade – A casa em que Alexandre Bueno, 31, mora com o filho e a mulher não chegou a ficar alagada, mas ele cruzou a lagoa que se formou no pátio de sua casa para ajudar vizinhos que tiveram mais problemas com a água. “Tivemos que abrir uma valeta nos fundos da casa da vizinha para que não inundasse a casa. Desde que começaram essas obras na rua, sempre que chove a rua se torna um rio. O pior é que não é só água da chuva, mas tem um forte cheiro de esgoto”, disse o morador da Rua Coronel Valença.
O presidente da Associação Comunitária da Vila Oliveira, Paulo Santos, ainda aponta a Rua Valenciano Coelho, como uma das afetadas pelas obras da prefeitura. “Eles passaram com carros pesados e rebaixaram a rua, que não é asfaltada. Agora ela é um rio”, comentou Santos, que já havia entrado em contato várias vezes com a prefeitura e as empresas encarregadas da obra na rua. A moradora do local, Andila Maria Sales Ignácio, 51, conta que é muito difícil sair com o carro e que nem bem a rua começou a secar para já se tornar um rio novamente.
O que a prefeitura diz
Em relação aos problemas nas Ruas Coronel Valença e Valenciano Coelho, o coordenador do PAC, Nabor Ribeiro, afirma que é a primeira vez que as reclamações de Paulo Santos chegam a ele, mas que em outras regiões da cidade também acontecem situações semelhantes. O coordenador já tem ciência do problema e hoje à tarde fará uma reunião com as empresas que fazem obras no local para chegarem a uma solução conjunta. Ontem ele já havia se reunido com outra empresas para resolver situações semelhantes de outros locais da cidade.
Previsão
Ao contrário do temporal do dia 8 deste mês, que foi causado por uma área de instabilidade, este foi teve como motivo uma frente fria vinda da Argentina. A previsão da Central de Meteorologia da BASM é de que hoje o tempo fique nublado, mas sem chuva. Amanhã, o tempo já deve começar a esquentar gradativamente.