
Da sacada de sua casa, Noelia mostra parte das vilas Núcleo Central, onde mora, e 7 de dezembro. Foto Rafael Dias/A Razão
Lizie Antonello
Há dez anos, Noelia Berger, 49, mora na Avenida Mallmann Filho, principal via de acesso à Nova Santa Marta, região Oeste de Santa Maria. Ela é uma das cerca de 20 mil habitantes da área, que até quarta-feira pertencia ao Estado, e foi ocupada há mais de 17 anos. Há muito ou pouco tempo, moradores sonham em ter nas mãos o documento que lhes dará a posse de suas próprias casas.
Durante uma década, Noelia acompanhou a evolução do lugar. “Quando vim para cá não tinha nada. Não tínhamos rua, havia muito barro, muita casa feia”, lembra a moradora. No terreno adquirido na época, ela ergueu uma pequena casa. Aos poucos, ampliou a construção e atualmente vive no andar de cima do prédio onde, no térreo, abriu uma ferragem.
Da sacada da nova residência ela vê parte de pelo menos três vilas. “Hoje, vejo a evolução daqui, melhor ainda agora que poderemos evoluir mais”, declara a moradora. Há dois dias a governadora Yeda Crusius veio a Santa Marta fazer a entrega oficial da área de 254 hectares para o município. Com isso, a Prefeitura poderá dar andamento ao processo de regularização fundiária e cada morador terá a escritura do seu terreno. “Apesar de ter construído tudo, não tinha segurança. Compramos, mas enquanto não pagamos o imposto não é da gente. Agora sim, vou poder dizer que construí e isso é meu”, considera.
O crescimento visto da casa de Noelia não foi somente populacional. Entre velhas e novas conquistas, o cenário foi e ainda está se modificando pelo bairro. A antiga rua de chão onde ela morava, se transformou em via asfaltada e há menos de um ano a rede de esgoto chegou à frente da casa. “Temos asfalto, esgoto, luz, água. Até vir tudo isso foi uma grande luta”, comemora a comerciante.
A Santa Marta e o Movimento pela Moradia
A história do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM) se confunde com a da Nova Santa Marta. Fundado em junho de 1990, o Movimento tem na maior ocupação urbana da América Latina motivo de orgulho. “Bairro maior que o nosso tem na América Latina, favela também, mas ocupação feita de forma organizada, a Santa Marta é a única”, afirma Cristiano Schumacher, representante do Movimento.
Logo no ano de fundação, o Movimento organizou ocupações em diversas cidades do Rio Grande do Sul, entre elas Santa Maria. O primeiro contrato entre moradores e Estado – ‘termo de concessão de uso do solo’ – é exibido pela líder comunitária Fátima Gonçalves com satisfação. O documento data do final de 1995.
Os relatos de 7 de dezembro
Fátima Gonçalves, 46, estava entre as 74 famílias que, no dia 7 de dezembro de 1991, ocuparam a área da Nova Santa Marta. Vindas de diversos lugares da cidade, as pessoas se reuniram durante um ano em plenárias antes da tomada do local. “Eram pessoas que não conseguiam se cadastrar na Cohab, porque não tinham renda comprovada”, conta a atual presidente da Associação Comunitária da Vila 7 de dezembro.
A maioria das mulheres exercia a atividade de empregada doméstica. Entre os homens a profissão mais comum era de pedreiro ou serviços gerais em construções. Serviços que não rendiam os dois salários mínimos exigidos, na época, para o credenciamento nos programas habitacionais.
Então, naquela noite, um foi avisando o outro, de vila em vila, e na madrugada do dia 7, a ocupação foi efetivada. “A Brigada Militar (BM) cercou o acampamento com cordas e não deixava ninguém entrar ou sair. Isso durou até às quatro da tarde. Foi Dom Ivo (bispo emérito de Santa Maria Dom Ivo Lorscheiter) que interviu para liberar a área. Mesmo assim, a Brigada ficava vigiando”, relata Fátima.
Assim que a BM deixou o local, os ocupantes ergueram barracas, cobertas com lonas e, dessa forma, permaneceram, sem luz, água ou qualquer infraestrutura, apenas com ajuda de moradores de bairros vizinhos.
Conforme Cristiano Schumacher, representante do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), pouco depois da ocupação, um grupo de moradores da rua Fernandes Vieira, região Norte de Santa Maria, que haviam sido despejados, formaram a vila 10 de outubro. Seguida pela ocupação do local onde mais tarde seria a vila Alto da Boa Vista. Os núcleos seguintes foram Pôr do Sol, Núcleo Central, 18 de Abril e Maristas II. Nesse período, a Nova Santa Marta chegou a ter mais de 370 famílias. De acordo com Schumacher, o governo do Estado teria tentado a reintegração de posse, mas a justiça não teria concedido.
Nove meses depois da montagem da primeira barraca, ocorreu o sorteio de lotes para 200 famílias e teve início a construção das casas. “Os materiais eram trazidos de carroça e a única luz que havia era dos candeeiros”, lembra Fátima.
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