Usuários denunciam comércio de fichas
Xavier foi retirar ficha para esposa, Inês, e ficou sabendo do comércio

Xavier foi retirar ficha para esposa, Inês, e ficou sabendo do comércio

Lizie Antonello

O chapeador José Xavier Pedroso, 63 anos, acordou cedo na manhã da última segunda-feira e andou mais de dez quadras até a Unidade de Saúde da Vila Kennedy, região norte de Santa Maria.
O objetivo era retirar uma ficha para sua esposa, Inês Loro, 62 anos, com a clínica geral que atende no posto. Inês sofre de Diabetes, precisa fazer uma série de exames e seguidamente sente-se mal, portanto, não poderia enfrentar a ‘jornada’.

Ao chegar na Unidade, às 5h45, Xavier se deparou com uma enorme fila. Entre as pessoas que aguardavam pelo começo da distribuição dos ‘tickets’ – que ocorre a partir das 7h – o comentário era a comercialização dos números que dão direito ao atendimento. “Me disseram que tem 3 ou 4 pessoas que ficam na fila, pegam as fichas e trocam por dinheiro ou bebida depois”, conta.

Resultado: Xavier voltou para a casa sem a ficha para a esposa. Inês só conseguiu ser atendida à tarde e, mesmo assim, contando com a boa vontade da médica do posto, que diante do quadro de Inês percebeu a necessidade da consulta. Ela marcou um exame de sangue que foi feito na manhã de ontem e agora aguarda pelo resultado que deve sair na sexta-feira.

Final feliz para o casal, mas a situação não é digna de comemoração. Assim como o chapeador, ao não garantir a consulta, muitas pessoas precisam retornar para a fila ainda mais cedo no dia seguinte. “Acho um absurdo, porque quanta gente têm dificuldades para se locomover ou problemas sérios de saúde e vêm igual para a fila porque precisam”, lamenta. “Não é justo”, completa.

A comercialização de fichas também foi denunciada por outro morador. Roberto Costa, 50 anos, tem problemas musculares e hérnia de disco. Mesmo assim, frequentemente, enfrenta a fila para conseguir atendimento na Unidade.

Ele aponta outro dano causado pelo esquema. Ao não conseguir vender ou trocar as fichas os ‘comerciantes’ as colocariam fora. “Várias vezes já aconteceu da médica chamar o portador da ficha e a pessoa não se apresentar. As que não foram vendidas, são perdidas”, relata.

Administração desconhece prática

Funcionários e administração da Unidade disseram não ter conhecimento sobre o negócio das fichas. “Os pacientes não reclamam conosco sobre isso”, diz um servidor que prefere não se identificar.
Segundo eles, a prática era comum em anos anteriores. Tanto que a prefeitura chegou a enviar ‘olheiros’ para a fila na tentativa de identificar os ‘comerciantes’. Mas, nada teria sido comprovado.
A equipe do posto pede que os usuários denunciem os casos à administração da Unidade. “Quem compra também está errado porque é conivente”, lembra um funcionário.

O coordenador da Unidade, Altemir Martins Ribeiro, diz que vai tratar sobre o assunto em uma reunião, hoje, com o diretor-geral da secretaria de Saúde, Luiz Skynovsky.

“Apesar de ser algo que acontece fora do posto, quero implantar um método novo de controle de fichas, mas preciso ver se é viável”, comenta.

Atualmente, são distribuídas cerca de 45 fichas pela manhã, entre clínico geral e especialista. À tarde, outras 15 são entregues para plantonista da noite.

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    • Valeska Huffel

      Esse não é um problema só dos “comerciantes”, mas sim de todo um esquema que pertence ao Estado Democrático de Direito, que esse Estado cumpra com suas obrigações, nos setores a que lhe pertençam sáude, educação, segurança e outros…impedindo essas enormes filas, que a cada ano cresce mais e dá “corda” para que sempre alguém tente tirar proveito como é da mentalidade ante-educacional que vive a nossa sociedade e que é geral em todas as nossas ” Castas”, não querendo comparar com a Índia que é bem mais organizada, pelo menos no que diz a mentalidade moral e ética.
      Punir e não solucionar a raíz é como deixar que o mato cresça novamente e mais forte ainda.
      Valeska Huffel
      Economista

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