Maiquel Rosauro
A Prefeitura de Santa Maria abriu uma sindicância para apurar as possíveis irregularidades cometidas pelo Hospital de Caridade na administração da Casa de Saúde. A investigação teve origem em uma carta enviada por um leitor do jornal A Razão e publicada na edição de final de semana, dos dias 10 e 11 de janeiro de 2009, no “Espaço do Leitor”. A carta de autoria do ex-funcionário do setor de informática da Casa de Saúde, Elso das Trevas Farias, denunciava, entre outras coisas, a falta de profissionais credenciados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em várias especialidades médicas, equipamentos de informática ultrapassados e falta de investimentos na área e superfaturamento de medicamentos e materiais.
De acordo com a presidente do Conselho Municipal de Saúde, Maria do Carmo Quagliatto, muitas das denúncias de Farias condizem com a realidade. “Ele está certo quando diz que as unidades 600 e 700 estão fechadas e também sobre outros casos que consta na carta”, relata.
Segundo Maria do Carmo, o Conselho está empenhado em realizar melhorias no hospital, como participar da câmara técnica deliberativa e fiscalizadora, que atuaria dentro do hospital junto com o Caridade e a Prefeitura. “Esta câmara participaria de políticas de saúde e não da administração”, explica.
Conforme a Portaria 008, de 11 de fevereiro de 2009, assinada pelo prefeito em exercício José Haidar Farret (PP), três servidores foram designados para comporem a Comissão de Sindicância, sob a presidência do médico e servidor da secretaria de Saúde Flávio Brum. Ainda compõe a equipe o procurador geral do município, Fernando do Ó Porto, e a funcionária da secretaria de Finanças, Rosaura Vargas.
De acordo com Farret, o prefeito Cezar Schirmer (PMDB) recortou a carta publicada em A Razão e a encaminhou para a procuradoria jurídica do município. O órgão entendeu que seria necessário abrir uma sindicância para investigar as denúncias, uma vez que a Prefeitura assinou um acordo com o Caridade. A comissão tem o prazo de dez dias úteis para averiguar as denúncias. Porém, o prazo pode ser prorrogado se for necessário.
Uma das preocupações de Farret consiste no convênio firmado entre Prefeitura e Hospital de Caridade, que não passou pela Câmara de Vereadores e, por consequência, limita as ações do Executivo. “Eu não vejo problema em o Caridade continuar administrando a Casa de Saúde, desde que sejam feitas as adaptações jurídicas necessárias. Nós não podemos nem pagar a conta de luz do hospital”, relatou.
A carta
Casa de Saúde
Meu nome é Elso das Trevas Farias e venho através desta relatar descontentamento meu e de meus companheiros com relação à gestão do Hospital de Caridade na Casa de Saúde, pois sei que só estão lá por causa da filantropia e não pela comunidade. Nosso hospital não prosperou em nada, e pelo contrário, está caindo aos pedaços, literalmente. Tudo foi reduzido a leitos, cirurgias, funcionários, etc. Poderia escrever um livro, por isso que solicito uma providência imediata junto ao governo, no sentido de tomar a gestão da Casa de Saúde para si ou a um conselho, pois sei que só assim este hospital irá melhorar.
Exemplo de incompetência:
- Antes a Casa de Saúde atendia Santa Maria e Região. Hoje só a cidade, e com restrições a pacientes que não dão lucro.
- O número de AIH e CIH e Ambulatórias foi reduzido consecutivo a isso o faturamento também. Ex: menos pacientes é igual a menos faturamento.
- Medicamentos e matérias e gases com super faturamento, não seguem a tabela da ANS, pois vendem com um preço ao Caridade (centro) e a Casa de Saúde outro, sendo a administração e uma só.
- O sistema de informática está com computadores ultrapassados e outros não funcionam mais, desde que o caridade entrou o sistema decaiu, pois não se investiu mais na área. Também com falta de profissional na área em sistema SUS.
- No ambulatório estão faltando especialistas e equipamentos que antes funcionavam. Ex: esteira para o teste ergométrico.
- Há anos não têm laudo da qualidade da água e Ph, pois vem de poço artesiano.
- As unidades 600 e 700 estão fechadas com quase 100 eleitos públicos a mais, inclusive tem dentro desta uma nova maternidade com ar condicionado e banheira de hidromassagem e estão só servindo de ninho de pombas.
- Não tem médico credenciado do SUS para assinar qualquer coisa ex: Laudo.
- Não tem médico plantonista, em caso de complicação no paciente não tem a quem recorrer.
- Não tem mais tomografia, só uma grande sala cheia de buracos.
- A radiologia e mamografia faltam profissionais e equipamentos modernos, pois tem muita manutenção.
- Almoxarifado e nutrição estão sempre quase vazios, antes tinha estoque para dias ou meses.
- Na manutenção não foi comprado uma só ferramenta nova, e as que têm não da mais para usar.
- Tem inúmeros problemas elétricos devido a suas instalações antigas.
- A Casa de Saúde esta caindo! Na sua fachada já caiu inúmeras placas de concreto e sua pintura e reboco estão se decompondo.
E tem mais como disse daria para escrever um livro… A filantropia do Caridade é R$ 30 milhões, e esse dinheiro é de toda a comunidade carente que precisa da saúde, ainda mais aqui em Santa Maria que estão faltando leitos.
Tudo isso sem contar que todo o convênio com o Caridade esta irregular, não foi passado na Câmara Municipal e nem tem aprovação do Conselho de Saúde.
E se alguém abre a boca para falar tudo isso é demitido.
Elso das Trevas Farias
Santa Maria
Carta publicada na edição de final de semana de 10 e 11 de janeiro de 2009